por Jonnathan Alves*
Resolvi me infiltrar em lugares diferentes. A ideia é mostrar a visão de um gay infiltrado em ambientes não muito comuns à maioria da comunidade gay. E para começar com o pé direito ou esquerdo, talvez, resolvi me infiltrar em uma igreja protestante.
Eu sempre tive preconceito com relação às igrejas evangélicas assim como a maioria dos gays. Quando eu era criança cheguei a frequentar com uma vizinha a Igreja Batista, uma igreja que, na minha visão, sempre foi mais light que as outras. Como eu já tinha ideia de como era a instituição resolvi conhecer uma igreja diferente, mais radical… Fui conhecer a Assembléia de Deus. No início, fiquei meio perdido já que são muitas Assembleias hoje em dia.Na minha infância, que eu me lembre, só existia uma.
Resolvi ir na tradicional que é radicalíssima com relação aos dogmas. Fiz o possível e o impossível para não chamar atenção, por isso fui com roupa social. Chegando na igreja fui notado por nunca ter sido visto lá. Imediatamente fui abordado pelo pastor e por algumas denominadas “irmãs”. Todos muito simpáticos, tentaram me deixar o mais a vontade possível. Logo, representantes de um grupo jovem da igreja me foram apresentados e estes trataram de me convidar pra conhecer e participar das reuniões deles.
Logo começou o culto. Durante o culto virei o centro das atenções: o pastor me convidou para ir no altar e me apresentar pros chamados “irmãos”. Fiquei constrangido com a situação mas não podia sair do disfarce. O culto continuou muito bem com aquelas leituras um pouco deturpadas da bíblia e as condenações do tipo: “IRMÃS E IRMÃOS, o mundo está perdido! Os gays querem casar, querem direito de nos calar, de nos censurar!” Nessa hora, me deu vontade de gritar e mandar o pastor calar a boca mas não podia colocar tudo a perder. E continuou… “a juventude tá se drogando porque não aceita Jesus, não vem para a Igreja…” Na hora de LOUVAR, como eles dizem, como não sabia as letras das músicas tive que dar uma de drag e dublar
No final do culto a maioria das pessoas veio falar comigo e me cumprimentar. Depois dessa experiência na Assembléia, resolvi ir conhecer outras duas igrejas evangélicas. Escolhi a mais popular e mal falada, diga-se de passagem: a Universal e Mundial do Poder de Deus. Fiquei pasmado com os absurdos que presenciei em ambas, com os pastores pedindo dinheiro pra pagar a exibição do programa na TV e as condenações de sempre.
Na Universal, o pastor estava fazendo campanha contra a novela das nove da Globo, que segundo ele, dissemina o “homossexualismo” entre os jovens. Na Mundial do Poder de Deus, entre gritos histéricos do seu pastor, ele esbravejava que “do jeito que o mundo está, o homossexualismo vai dominar o mundo e acabar com as famílias de Deus”.
A minha conclusão foi a seguinte: sinto que essas igrejas usam de um livro manipulável como a bíblia, já que existem várias maneiras de interpretá-la para plantar dogmas e preconceitos na mente das pessoas. Me senti acolhido na Assembléia por ser uma igreja mais tradicionalista e sinto que entre os “irmãos da igreja” existe uma cumplicidade, nem sempre sinceras. Mas sinto que os pastores usam do seu poder de fala e de convencimento pra conseguir o que querem, que é o dinheiro ou, como eles dizem, o “dízimo”.
*Jonnathan Alves-Editor-chefe do Baphônico.
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